Curtas
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Verão no Verão

Artigo de opinião

opiniao
Verão no Verão

Verão, caros leitores e caras leitoras, caso costumem, como era antigamente costume universal de quem tinha férias e podia delas desfrutar fora da terra em que vivia, ir a banhos neste período de retempero de um ano de trabalho, como diferente é a paisagem, muito especialmente a humana, relativamente ao que era nas várias camadas de tempo por que cada um e cada uma foi passando, de acordo com o tempo que sobre si e dentro de si já leva.

Os que, como eu, já transportam sete décadas sobre os ombros e as lembranças, olhando para trás verão as crianças que foram, mesmo em idade ainda pré-escolar, praiando (acabei de ler um livro de Mia Couto …) de roupa de banho formada por duas peças, por isso propriamente chamada de “fato de banho”, ou seja um calção de malha ao qual se abotoava um peitilho, o que deixava ao sol apenas pernas, braços, ombros, um nico de peito abaixo do pescoço e as costas, sobre as quais se cruzavam as alças do dito peitilho.

Lembrando-se hoje das veraneantes crianças que há décadas foram, e lembrando-as nuazinhas frente ao espelho após alguns dias de sol e manteiga de cacau, os que assim se lembrarem verão um corpito minúsculo parecido com as fotos dessa época – completamente a preto e branco.

Vasculhando o álbum ou a caixa das fotos votadas ao arquivo morto, ver-se-ão – é infalível – sentadas na areia, cliché tomado quase ao nível do solo e a meia contra luz, chapéu de pano com aba curta rodeando a copa, pernas cruzadas, costas em arco, queixo encostado ao peito, pazinha na mão e baldinho ao lado.

Nessa foto verão, em plano mais afastado, maiores ou menores grupos de adultos, eles sentados em cadeiras de lona e madeira (de realizador, passaram a chamar-se bastantes anos depois) os mais velhos, em pequenas cadeiras todas de madeira os de juventude recém evaporada e elas, as mulheres, sentadas sobre o areal, pernas dobradas para trás, tronco assente sobre um dos lados da traseira inferior, corpo inclinado para esse lado e o correspondente braço esticado sustentando a pose, mão meia enterrada no areal e ombro soerguido, iniciando a oblíqua descendente desse ao outro ombro, a meio da qual assenta, perpendicular, a feminina cabeça.

Adultos em fato de banho muito poucos e tapando, tal como viram nas crianças, cerca de metade do corpo, claro que não em metades completas na perpendicular, o que seria uma impossibilidade mas, mais grave que isso, um desaforo que então nem se imaginaria, mas sim numa espécie de três partes, como o corpo humano, cabeça, tronco e membros, sendo que praticamente só a cabeça e os membros estavam expostos (esta palavra, na época, só por si apontava para algo de desadequado – “criança, olha-me para ti, com o corpo tão exposto!”).

Desde esse recuado tempo de que venho falando até à atualidade, vários estratos de costumes e usos se foram sucedendo, desde a queda, nos homens, da parte superior do fato de banho, até ao desaparecimento, no das mulheres, do pequeno saiote que ia de uma a outra das costuras laterais das pernas, numa normalmente vã tentativa de tornar invisível sequer a sugestão do que entre elas teria necessariamente de existir.

Depois foi o lastex, o encurtamento, nos fatos de banho, das cavas inferiores tantos nos masculinos como nos femininos e, nestes, também das cavas superiores, tanto laterais como fontais e traseiras.

Seguiu-se a permissão do uso do bikini, facto demonstrativo de que frequentemente a lei, pela sua desadequação ao tempo para que não foi concebida, é derrotada pelo tempo novo e costumes a ele mais adequados, a instituição de zonas de nudismo – mais uma vez a lei a reboque da prática – e o mais que ora se vê.

Das férias de verão diz-se, na modernidade e através de um anglicismo que desaprovo, como desaprovo todos os estrangeirismos desnecessários, que é a silly season – a época do disparate (haverá traduções mias adequadas, mas julgo que esta serve).

Não se estranhe, pois, que esta opinião contenha também ela algo de silly.

Vão, caras e caros leitores, a qualquer praia das que estão em uso e verão o mesmo que eu tenho visto. Uma profusão cada vez maior, de bom ou mau gosto, consoante o gosto de quem vê, de dois elementos, um imposto pela natureza outro resultado da humana vontade.

Vão, e o que verão?

Tatuagens, produto da vontade; fruto a Natureza, rabos!

A particularidade, quanto ao elemento da Natureza, está em que as novas peças de vestuário feminino a ele destinadas já não se destinam a encobrir as três partes por que é constituído – glúteo, separador, glúteo; encobrem, sim, apenas aquilo que já era invisível com os modelos ainda há pouco tradicionais, ou seja, o setor mais profundo do separador. Tudo o resto é colocado à influência dos raios solares, os quais, não raro, são necessários em grande quantidade dada a enormíssima superfície sobre que devem incidir, consequência do volume imenso de cada vez mais portadoras, fruto do incremento de maus hábitos alimentares, persistentes apesar das muitas campanhas contra eles, numa saudável tentativa de preservação da paisagem glútea das nossas praias.

No que respeita ao fruto da vontade, o fenómeno parece epidemia.

Já não falando em povos primitivos que as usaram segundo as suas crenças diversas, as tatuagens são costume ancestral muito difundido entre marinheiros e, entre nós nos tempos de guerra em África, por militares milicianos; mas tudo coisas pequenas e com significado facilmente explicável e compreensível, tais como nome de pessoa amada, âncora, tubarão, identificação de barco ou de regimento militar, zona e data de permanência na guerra, e outras do género.

Mas agora, leitoras e leitores, se ainda não foram, vão e verão por essas praias fora amplas zonas de corpos imensamente tatuados com os mais bizarros motivos, abstratos ou figurativos e, mesmo, literários, tais como estrofes dos Lusíadas e escritos que parecem ser passagens do Corão, cristos cruxificados ornamentando, se assim se pode dizer, costas, peitos e bíceps, cenas do Inferno de Yeronimus Bosh, grupos de familiares começando no pescoço e acabando sabe-se lá onde, Pastorinhos de Fátima abrigados sob o mamilo esquerdo olhando a Senhora artisticamente fundida com o mamilo direito, enfim, florestas com e sem animais ferozes, cobras subindo pela perna ou descendo pelo braço, ou uma e outra coisa, ou tudo ao mesmo tempo, enfim, verdadeiras orgias de tatuagens.


Que o costume é antigo prova-o o facto de, andaria eu pelos trintas, a minha amiga Pompélia, enfermeira, me ter contado que estando com a amiga dela Filosina, assistente de cirurgia, a preparar um doente para uma circuncisão, ouviu-a dizer – olha, este tem aqui tatuado “ónio”.

Levadas pela profissão para diferentes terras, mas encontrando-se um ano depois, a Filosina, perguntada pela Pompélia – que é feito de ti?, respondeu - casei!. – Olha que bom! Com quem?, foi o dito pela Pompília, ao que retorquiu a Filosina: – lembras-te daquele que tinha uma tatuagem a dizer “ónio”? Afinal a tatuagem completa era “Zé Maria – Vila Real de Santo António”.

Se non è vero è ben trovato…

A quem me lê, em primeiro lugar, a todos os demais também, votos de boas férias e muita paisagem.

Guimarães, 08 agosto de 2017

António Mota-Prego

a.motaprego@gmail.com



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